• Glauber Cruz

Curso Odilon Lopez de cinema documental é encerrado com produções de estudantes

Atualizado: há 7 dias


Projeto foi marcado pela ideia de que é possível nos enxergarmos e fazermos cinema


Um dos objetivos do Projeto Odilon Lopez — 50 Anos foi tornar o cinema possível para aqueles e aquelas que não se enquadram no imaginário daquilo que é possível no meio cinematográfico. Um imaginário racista, machista e elitista, que afasta a população negre do cinema.


Para mudar essa realidade, na primeira etapa do projeto aconteceu um curso gratuito e online de curta-metragem documental, especialmente direcionado para jovens negros e negras de periferias do Rio Grande do Sul. A proposta do curso foi incentivar o acesso e a produção de pessoas negras no audiovisual gaúcho.


“A possibilidade em proporcionar uma ação formativa com este contexto contribui com a democratização do audiovisual no Estado, amplia oportunidades para novos talentos e de narrativas com mais representatividade. Também promovemos assim o resgate e a preservação da história e cultura afro-brasileira em ambientes educativos, como prevê a Lei 10.639/03, por exemplo. Esta iniciativa é um marco para o Rio Grande do Sul “, ressalta Mariani Ferreira, uma das fundadoras do coletivo Macumba LAB. Durante as aulas foram abordados temas como História Afrocentrada do Cinema, roteiro, produção, direção e edição de documentário. Ao final, os participantes realizaram um minidocumentário autoral.


O pontapé inicial na formação de novos realizadores negres foi com a disciplina História Afrocentrada do Cinema. Ministrada pela multiartista, produtora e arte-educadora Kaya Rodrigues e pela roteirista, produtora e diretora Mariani Ferreira, as aulas abordaram a história do cinema por um olhar afrocentrado, enfocando a produção de realizadores pretos que marcaram o audiovisual gaúcho, brasileiro e internacional.


Para Mariani, a realização de um curso com professores e alunos negros é potente pois cria um espaço seguro, um verdadeiro aquilombamento. Ela também destaca que num espaço assim, o aprendizado vai muito além da técnica: “Não é só ensinar a técnica. É dar ferramentas, é trocar ferramentas com as pessoas pra que elas consigam descolonizar o seu olhar. Acho que você começar o estudo do audiovisual a partir de uma perspectiva afrocentrada é buscar referências pra além desse imaginário racista, pra gente criar um novo alfabeto audiovisual que não utilize apenas referências brancas, referências europeias, mas que busque referências em África”.


Na segunda etapa da ação formativa foi trabalhado o Roteiro para Documentário. Peça fundamental na produção cinematográfica, o roteiro é a porta de entrada na criação de novas narrativas. Como disse Rosane Borges em nossa Aula Aberta, “o olhar não é inocente, o olhar não é neutro”. O olhar que nos é apresentado é limitado: tem um recorte de raça, classe e gênero. Portanto, é na possibilidade de novas narrativas e olhares, é no processo criativo de indivíduos antes impossibilitados de contar suas histórias que a mudança acontece. É nos personagens e nos diálogos criados por aqueles tantas vezes silenciados que construiremos um cinema brasileiro democrático e plural.


A disciplina de Roteiro para Documentário foi ministrada pelo roteirista e consultor de roteiros Luiz Santana e pela diretora, roteirista Taís Amordivino. Para Luiz, “ter pessoas negras e periféricas escrevendo suas próprias histórias acaba sendo fundamental pra gente ter uma transformação real no audiovisual.” Ele também destaca como o olhar desses indivíduos, afastados do meio cinematográfico, é rico por ser carregado de suas vivências e existências pessoais: “o fato essas pessoas trazerem histórias que fazem parte da sua realidade, que vem aí com um olhar afetivo a partir daquilo que elas vivem, isso por si só já é um ato revolucionário.”


Depois do roteiro, foi a vez dos participantes pensarem a Produção para Documentário. A disciplina foi ministrada pela produtora cultural e controller audiovisual Priscila Severo e contou com a participação do produtor cinematográfico e publicitário Vandré Ventura. “No curso, eles conheceram o processo de produção, os profissionais e etapas envolvidos. Entenderam o caminho que o profissional de produção faz para tirar o filme do papel, passando por formas de financiamento, autorizações necessárias e cronogramas de produção”, relata Priscila.


Finalizados os ensinamentos sobre a pré-produção, foi a vez de pensar a Direção de Documentário. Ministrada pela cineasta, diretora criativa e escritora Day Rodrigues e pelo cineasta e designer Gabriel Muniz, a disciplina propôs aulas teóricas e práticas focadas em regras e estratégias na direção de um documentário. Segundo Muniz, a experiência de troca com realizadores negres se pautou muito pela abordagem “não de uma relação de alteridade, e sujeito e objeto, de ‘eu’ e ‘outro’, mas uma relação de identidade, de identificação, de encontro, e uma celebração do compartilhamento da ideia do que é narrar.”


Ele também destaca a importância de um cinema que esteja em contato e “apoio direto com as comunidades, terreiros, grupos culturais,comunidades quilombolas e indígenas, numa perspectiva de fortalecimento de nós e não só do ‘eu’, do papel do cineasta enquanto artista isolado”, pautando o trabalho do diretor por um ideal afrocêntrico e coletivo.


O módulo sobre Edição de Documentário/Pós-produção encerrou o curso. A disciplina foi ministrada pelo fotógrafo, artista visual e documentarista Giuliano Ventura e contou com a participação, em um bate-papo, da publicitária e roteirista Ana Moura. O módulo se baseou em aulas teóricas e práticas sobre edição com desdobramentos sobre a edição documental. Foram apresentadas alternativas de software para edição e formatos mais acessíveis de realização audiovisual. Segundo Ana Moura, a troca entre realizadores negres é importante pra que as pessoas negras se sintam “possíveis dentro de uma indústria que ainda é muito branca e preconceituosa”, que limita e muitas vezes inviabiliza a possibilidade de contar histórias.


O último módulo do curso, foi marcado pela produção e finalização de curta-metragens dos alunes do curso. Os curtas serão publicados aqui no blog e nas redes sociais do Projeto Odilon Lopez.


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