Pelo direito de existir

Macumba Lab é um coletivo de profissionais negros e negras do audiovisual no Rio Grande do Sul, uma rede de apoio. O grupo é uma ferramenta para a visibilidade e acesso ao mercado e se propõe a criar laboratórios de formação para pessoas negras, democratizando o acesso às técnicas e ciências audiovisuais. 

Macumba é um instrumento musical utilizado em festas e rituais de religiões de matriz africana. É também uma palavra usurpada e ressignificada para ofender essas mesmas religiões. Pois agora, estamos nos apropriando de volta do termo com orgulho. Pra nós "macumba" é pertencimento e ancestralidade. MACUMBA é resistência.

Em toda a história do Rio Grande do Sul, somente alguns longas foram dirigidos por pessoas negras. Obras como: "Um é Pouco, Dois é Bom" (1970), de Odilon Lopez, “Porto dos Mortos” (2012), de Davi de Oliveira Pinheiro, “Argus Montenegro & A Instabilidade do Tempo Forte" (Documentário 2012), de Pedro Isaías  Lucas, “Central - O Filme”, (Documentário 2016) de Renato Dornelles, "De Boca em Boca” (2016), de Wagner Abreu e "O Caso do Homem Errado”(2017), de Camila de Moraes. Dos cinco apenas dois  receberam financiamento público. Para fazer seu filme, o único longa da carreira, Odilon custeou de investimento próprio. Já Camila contou com uma rede de apoio de financiadores da própria comunidade Negra de Porto Alegre, que se mobilizou para ver narrada a história do assassinato covarde do Operário Júlio César de Melo Pinto. Davi custeou sua obra com empréstimos e auto-financiamento  e Wagner produziu sua obra de forma totalmente independente desde as filmagens até a edição. 

Há de se pensar o porquê dessa escassez de obras produzidas por pessoas negras, o porquê dessa elitização da produção audiovisual. Para desvendar esse enigma não é necessário ir muito longe em nossa história. Há crença de que o Rio Grande do Sul é apenas fruto da imigração alemã e italiana e também de que o acontecimento mais importante da história do estado é a “Revolução Farroupilha”. Não por acaso, é a historiografia dos vencedores, repetida e exaltada por uma elite branca.

A fim de corroborar com uma história da narrativa gauchesca que se esforça para nos apagar, toda a cadeia produtiva do cinema no Rio Grande do Sul foi montada para excluir pessoas negras e periféricas, tornando um ato revolucionário se fazer cinema sendo preto e pobre no Sul do País. Um exemplo é que em todos os anos de realização do Festival de Cinema de Gramado, apenas em 2019 uma realizadora negra, Juliana Balhego, foi premiada na Mostra Gaúcha de Curtas.

O Estado conta apenas com um curso público de cinema, localizado em Pelotas, e, portanto, ainda inacessível a uma grande parcela da população. Em Porto Alegre e Região Metropolitana, os cursos particulares de cinema oferecem pouquíssimas bolsas. Nesses ambientes, onde uma sala de aula tem apenas um aluno negro, quando muito, casos de racismo são diários.

A dificuldade de acesso ao ensino formal impacta diretamente na colocação de profissionais negros e negras no mercado de trabalho. A situação de exclusão e desigualdade se agrava pela falta de políticas públicas voltadas à formação de profissionais e financiamento de projetos realizados por negros e negras.

A inexistência de indutores ou cotas é um incômodo constante. Ainda assim, nos últimos dois anos, realizadores negros produziram um longa, ganharam edital federal para desenvolver duas séries e fizeram pelo menos uma dezena de curtas-metragens - muitos deles premiados em vários festivais pelo país. É uma produção de respeito, levando em conta o atual desmonte da Cultura no País e todo o cenário de desigualdade e exclusão ainda imposto na sociedade brasileira.

Nossos passos vêm de longe, de onde nos ensinam a resistir! Somos descendentes de reis e rainhas, guerreiros e guerreiras, negros e negras que dão sangue e suor em suas batalhas diárias. Somos descendentes de pessoas que ousaram vender a própria casa para realizar sua arte. Mas essa luta incessante e secular também cansa. É necessário que a elite, majoritariamente branca, que vem gozando de seus privilégios há muito tempo, tome ciência da sua responsabilidade e aja no sentido de reparar a desigualdade criada.


O Coletivo Macumba é fundado com o propósito de servir de ferramenta nessa luta e reivindicação histórica. Somos um grupo plural que reúne profissionais de diversas áreas do audiovisual. Profissionais premiados, que trabalham dentro e fora do estado, mas que ainda são invisibilizados no meio cinematográfico.

Existimos e reivindicamos políticas públicas que possibilitem à negritude o acesso ao ensino público e gratuito de qualidade. Reivindicamos indutores e cotas nos editais realizados no estado, além de incentivos para as empresas produtoras pretas. Exigimos e reivindicamos que o nosso lugar na história (e como contadores de história) seja respeitado e o de nossos antepassados, honrado.

Vivemos hoje uma das crises humanitárias mais graves da história conhecida. Se vamos emergir desta crise como uma sociedade melhor, vai depender também de finalmente enfrentarmos as chagas da escravidão e colonização que nos fazem padecer. A responsabilidade de enfrentar o racismo é de todos. Ter voz e poder de criação sobre as narrativas da produção audiovisual gaúcha é fundamental para a democratização do setor, em todas suas esferas. É um passo à descolonização, é o mínimo.

Então, na prática, propomos:

⦁ Políticas públicas que possibilitem o acesso de jovens negros e negras e indígenas a cursos de Cinema de  Universidades Públicas e Privadas. 


⦁ Políticas públicas que levem em consideração nossas vivências e especificidades. Pessoas trans negras têm  muito  mais dificuldade de acessar políticas públicas que pessoas cis.


⦁ Criação de bolsas de pesquisa para registrar e preservar a memória da produção negra e indígena audiovisual no Estado.


⦁ Políticas públicas de formação de profissionais negros e indígenas em audiovisual.


⦁ Descentralização do circuito exibidor, realização de sessões de cinema em bairros periféricos e pontos de cultura em Porto Alegre e região. 


⦁ Realização de atividades de formação de público voltadas para pessoas periféricas.

⦁ Criação de cotas e/ou indutores raciais em editais públicos de Cultura no Rio Grande do Sul.

 

⦁ Paridade racial nos comitês de seleção de editais públicos no Rio Grande do Sul.

⦁ Paridade racial em Curadoria e Júris de festivais de cinema no Estado. 

⦁ Na esfera privada, possibilidades de estágio de pessoas negras em produtoras audiovisuais, distribuidoras e players.

⦁ Na esfera privada, contratação de profissionais negros em produtoras audiovisuais, distribuidoras e players. de cinema. Não apenas em posições

secundárias, mas também como cabeças de equipe.

⦁ Paridade racial em elencos de produtos audiovisuais realizados no Rio Grande do Sul.  

⦁ Que nada seja discutido sobre nós sem nós.

ASSINAM ESSE MANIFESTO: 

- Adry Silva, roteirista, produtora, preparadora de elenco e atriz.
- Alix George, ator, diretor, músico
- Ana Moura, publicitária e roteirista
- Andressa Almeida, estudante de jornalismo 
- Carmem Fernandes, artista plástica e ilustradora
- Cleverton Borges, Técnico de Som Direto/ Roteirista/ Diretor
- Cristina Rosa, direção e roteirista
- Gautier Lee, roteirista, diretora e crítica de cinema
- Giuliano Lucas, Diretor, Diretor de Fotografia, Câmera, Técnico de Som e Sonoplasta
- Glauber Cruz, jornalista e roteirista
- Jackson Moura,Estudante de Jornalismo
- Jacqueline Aquino, Camareira, Proprietária do Acervo Casa Invertida
- Jeferson Silva, Produtor e distribuidor audiovisual
- Jonatan Tavares, publicitário
- Juliana Balhego, realizadora audiovisual
- Junior barbosa,motorista, produtor objetos e arte

- Kaya Rodrigues, atriz e produtora de elenco
- Luiz Santana, roteirista
- Mariani Ferreira, roteirista
- Marina Kerber, artista visual, animadora, diretora e diretora de arte 
- Paula Souza, Atriz
- Phelipe Caetano, Roteirista
- Samara Silva, design de moda, figurinista
- Sofia Ferreira, produtora executiva, produtora de elenco e atriz
- Thaise Machado, Direção de Arte e Cenografia
- Vanessa Rodrigues da Silva, Diretora e produtora de arte
- Vandré Ventura, Diretor de produção
- Vinícius Brito, Filmmaker e publicitário
- Wagner Abreu, Diretor

UM PROJETO MACUMBA LAB @2020. DESENVOLVIDO POR JQRD DESIGN E AFINS

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